Com o intuito da prática do exercício literário, o Coletivo Tem Gente Escrevendo produz através de seus escritores, textos sobre temas definidos pelo grupo. Publicados no site oficial, é interessante ver os diversos olhares que se cruzam sob a ótica do mesmo tema. Além dos textos semanais, o Coletivo ainda traz notícias literárias, microcontos e ilustrações dos próprios membros.

O Baú Urbano selecionou para o nosso público as melhores indicações e também tem o intuito de incentivar a leitura. Com essa proposta, publicamos em primeira mão, as resenhas de cinco escritores do Coletivo, sobre os melhores livros de 2015!

São seis dicas de livros, dos mais diversos assuntos: da filosofia ao romance policial, da física quântica à biografia. Sob a perspectiva do site Tem Gente Escrevendo, estes são os melhores livros de 2015 que não podem faltar na sua estante em 2016.

Uma boa dica de leitura para o início deste ano!

BOOKS

“Criatividade quântica”, de Amit Goswami

Quando terminei a leitura deste livro, prometi que eu falaria dele para cada pessoa interessada em leitura e criatividade que eu conhecesse na vida. Criatividade quântica, do professor, pesquisador e Ph.D em física quântica, Amit Goswami trata o fenômeno da criatividade como um bem universal, disponível em cada átomo do universo para todo e qualquer ser humano capaz de se libertar das limitações do ego.

Indiano, em seu trabalho literário Goswami religa (religião, religare…) criatividade à espiritualidade, além de explicar cientificamente como o fenômeno ocorre em nós como uma microparte do universo. Utiliza belamente as histórias da miotologia indiana como paralelo a alguns trechos sobre Física Quântica, que, para os formados em áreas humanas como eu, são um pouco teóricos — confesso que pulei essas páginas, pois me interessava o discurso filosófico.

Eu já praticava yoga há alguns anos, no entanto, quando tive contato com este livro, e compreendi o quanto o nosso aperfeiçoamento espiritual está ligado ao bem-estar e ao desenvolvimento de potencialidades, passei a querer ir mais fundo em tudo o que envolve o yoga (… religare, união). Isso significou para mim não somente um maior estudo das posturas, bem como de toda a bagagem espiritual que está por trás de cada movimento, de cada uma de nossas atitudes no dia a dia, para conosco, com o outro e com o universo.

Goswami relata que a divisão entre o modo de vida oriental e ocidental, estimulada pela nossa sociedade, nos condena a uma vida medíocre no sentido de não contribuir para o nosso progresso integral. Por exemplo, em suas palavras, “tradicionalmente, o Ocidente favorece a criatividade externa em relação à interna, e o Oriente, a interna em relação à externa”. Nossa sociedade capitalista ocidental incentiva a competição como um meio para alcançar o topo da pirâmide pessoal e social. No entanto, ainda segundo o físico, “essas formas polarizadas de colher a criatividade não serão suficientes para cumprirmos as tarefas do próximo milênio”.

Em paralelo à leitura do livro de Goswami, pelo qual fiquei tão intrigada a ponto de lê-lo duas vezes em um intervalo de poucos meses, rapidamente finalizei a leitura de Pequeno guia para pessoas inteligentes que não estão dando certo, de Béatrice Millêtre. Na verdade, esse livro não complementou o de Goswami, mas ajudou a desatar alguns nós que se formaram na minha mente. Béatrice é uma doutora em psicologia que se debruçou sobre o comportamento das pessoas que usam mais o lado direito (criativo, inovador, disperso — categoria em que me classifiquei na hora) do cérebro em comparação com as que utilizam mais o esquerdo (organizado, padronizado, mecânico — a maioria). O próprio Goswami não concorda com esse método de classificação, já que, para ele, qualquer pessoa tem igual oportunidade de viver uma vida criativa, em todos os sentidos, seja um David Bowie ou um Stephen Hawking.

No fim do prefácio, Amit Goswami, daqui por diante meu novo guru, resume lindamente tudo o que o leitor encontrará dali para frente: “[…] o tema deste livro é a canção criativa, com todas as diversas harmonias enfatizadas. Quando entoamos a música da criatividade, usando a harmonia mais apropriada para as demandas de um determinado momento criativo, nossos versos individuais e simples passam a fazer parte do multiverso cósmico abrangente — o verso unido que denominamos universo.” Criatividade quântica é um livro que não deve ficar na cabeceira, mas embaixo do travesseiro, para que suas palavras possam nos penetrar por osmose.

MILLÊTRE, Béatrice. Pequeno guia para pessoas inteligentes que não estão dando certo. Rio de Janeiro: Guarda-chuva, 2012.

(Fernanda Silveira)

 

“Hereges”, de Leonardo Padura

Sou uma pessoa obsessiva – ao menos quando se trata da produção cultural de artistas que admiro. A perseguição começou na adolescência, com os mistérios de Stephen King, Edgar Allan Poe e Agatha Christie. Esta, que na verdade foi a primeira autora em cuja obra me embrenhei, tinha como principal protagonista de suas histórias o detetive Hercule Poirot, o que permitia que, a cada livro, o leitor pudesse se familiarizar mais com aquele personagem. O caso é que, depois de cerca de dez anos afastado da literatura de ficção, período em que estive mais dedicado a auscultar filósofos e cientistas sociais, finalmente em 2015 voltei a dar atenção aos romances.

E novamente encontrei-me obcecado pelos livros de um escritor: o cubano Leonardo Padura. Embora Padura tenha ficado conhecido como autor de “O homem que amava os cachorros” (2009), é em seus livros anteriores, especialmente na tetralogia “Las cuatro estaciones”, escrita ao longo dos anos 1990, que o cubano finca suas narrativas policiais na figura de um personagem principal: o detetive Mario Conde. Assim como o Poirot de Christie, Conde vai sendo apresentado e desfolhado a cada nova história por seu criador, que define o policial que queria ser escritor como alguém que “arrasta uma melancolia”. Depois de mais de uma década longe das páginas, o principal personagem de Padura é resgatado em “Hereges” (2013), livro lançado em 2015 no Brasil e que considerei a melhor leitura do ano.

Seria impossível, neste curto espaço, percorrer os meandros da incrível história narrada por Padura, que visita a Holanda de Rembrandt do século XVII, passa pela tentativa de fuga para Cuba de judeus às vésperas da segunda guerra mundial e, enfim, aporta na Havana do século XXI, onde reencontramos um Mario Conde já aposentado do ofício de policial, porém não liberto da obsessão de esclarecer roubos e assassinatos. E quando um obsessivo encontra o outro, há sempre alguma dose de conforto.

(Arthur Bezerra)

 

“Elis Regina” – Nada Será Como Antes, de Julio Maria

A foto de ponta cabeça na capa e o título do livro formam um casamento perfeito entre texto e imagem, assim como o som da voz de Elis Regina e a visão de suas arrebatadoras interpretações. Mais que ouvir, ver Elis Regina é uma experiência fantástica. Agora, temos a oportunidade de lê-la, em suas grandezas e vacilos, na competente narrativa do jornalista Julio Maria, autor da biografia Elis Regina – Nada Será Como Antes. A história de Elis Regina é contada como um romance, o que dá fluidez ao texto, proporcionando uma leitura prazerosa e imagética. E provou que, ao optar por esse estilo literário, o autor marcou um golaço. Elis Regina, basicamente, pode ser definida como uma mulher que foi à luta. Ela subverteu, pirou o cabeção de muita gente, bagunçou paradigmas – seus e de neguinho –, virou o mundo da música de cabeça para baixo e, depois dela, vimos que a MPB de cabeça para baixo é o prisma certo.  Nada será como antes depois de “Nada Será Como Antes”.

(Rodrigo Abrahão)

 

“The Book: On the Taboo Against Knowing Who We  Are”, de Alan Watts.

Sobre a minha leitura favorita de 2015: o livro que mais me marcou foi o The Book: On the Taboo Against Knowing Who We Are (não sei se tem em PT-BR, li em inglês mesmo).

Não é um livro lançado em 2015 (é de 1989 na real), mas foi no ano passado que eu li, então acho que tá valendo.

Eu sempre tive uma curiosidade e um certo fetiche/apego estético por sabedoria e cultura oriental, e peguei esse livro pra ler depois de ler uns excertos e citações que meus amigos mandavam pelo whatsapp, cheios de parágrafos fodinhas e frases de efeito ligeiramente fora de contexto (ou o máximo de contexto que um print de página permite). E foi esse o livro que me deu aquele empurrãozinho definitivo para o budismo.

O autor do livro (Alan Watts, pode googlear que vale a pena) foi um praticante do Zen e um dos pioneiros da divulgação dessa escola budista no ocidente. Ele conseguiu o feito de apresentar uma milenar e ao mesmo tempo alienígena de uma maneira inteligível a palatável ao ocidental médio. Digamos que nesse livro ele tenta explicar a vida, o universo e tudo mais… e consegue! É um mindfuck absurdo, ainda que todo arrumadinho de forma clara e concisa. Explica quem somos, a diferença entre o que somos e quem achamos que somos, nossa relação complicada com o mundo ao nosso redor, nossa cultura, e porque passamos a vida sofrendo tanto.

Custei um pouco pra começa-lo na época, e aproveitei a oportunidade de uma viagem de trem para desencostar o livro do Kindle. Devorei ele inteirinho, de uma vez só, ao longo das quase três horas de viagem.

(Rafa Monteiro)

 

“Hibisco Roxo”, de Chimananda Ngzoi Adichie.

Meu livro arrebatador de 2015 foi Hibisco roxo, da Chimamanda Ngozi Adichie.

Como acredito que as mulheres devem e precisam escrever mais, tenho o compromisso de ler mais mulheres também. Mas estou ainda tão contaminada com o machismo nosso de cada dia, que comprei o livro esperando uma literatura fraca ou um livro chato. E nunca amei tanto frustrar minhas expectativas.

Eu achava que não fluiria porque não acreditava em literatura panfletária sem cara de literatura panfletária, mas a Chimamanda faz uma coisa incrível, conta histórias (como ela conta nos TEDs da vida) que faz você se envolver e não parar de pensar na personagem principal em nenhum momento enquanto e depois de ler, porque volta e meia ainda penso em Kambili, e na sua mãe, seu irmão, sua tia (<3), primos, pai…

Eu não quero falar sobre o livro, quero apenas dizer que todos deveriam lê-lo.

(Michele Paiva)

 

E aí, curtiu? Tá esperando o que para botar a leitura em dia?

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